Stanley Keleman e a
Psicologia Formativa®

Quem foi Stanley Keleman

Stanley Keleman é o criador da Psicologia Formativa®, uma abordagem calcada na noção do corpo enquanto um processo somático constantemente formando a si mesmo. Ao longo de mais de quarenta anos de prática clínica e de pesquisa sobre a vida do corpo e suas conexões com todos os aspectos da experiência humana, Keleman criou uma linguagem, um corpo teórico e uma metodologia que põem um fim ao dualismo corpo-mente, unindo estreitamente biologia e psicologia como parte de um contínuo formativo que traduz a complexidade e a grandeza do processo humano.

Keleman nasceu em 1931 na cidade de Nova Yorque, filho de imigrantes húngaros. Graduou-se primeiro em Ciências Biológicas e percebia desde então que as pessoas queriam ter saúde mas não sabiam o que fazer para obtê-la.

Seu interesse pelo corpo sempre teve uma base experiencial, tendo se iniciado com o atletismo e continuando depois com a sua formação pelo Instituto Quiroprático de Nova York, onde graduou em 1954.

Após iniciar sua prática clínica, Keleman começou a observar a relação existente entre conflitos emocionais e distorções da postura corporal. Aprendeu sobre os reflexos de contração e expansão do organismo e sobre os padrões de estresse vinculados a estes e sua relação com o surgimento das doenças. Ao trabalhar fisicamente com as pessoas percebeu que a medida que organizava e desorganizava padrões musculares evocava respostas emocionais.

Keleman criou uma reputação profissional ligada à sua capacidade de reduzir o estresse e a tensão, contando com uma sólida prática clínica em N.Y. formada especialmente por artistas da Broadway e da Metropolitan Opera. Baseado na experiência clínica que apontava uma inter-relação entre o corpo e as emoções, Keleman desenvolveu um método para trabalhar com o estresse que consistia em criar um diálogo com o padrão de organização presente no organismo intensificando-o ainda mais e evocando assim uma resposta muscular na direção oposta, a desorganização deste padrão.

Seguindo seus interesses, iniciou um programa de estudos e pesquisa sobre a vida do corpo. Em 1957 tornou-se membro do Instituto de Análise Bioenergética de Alexander Lowen, do qual foi senior trainer até 1970. Keleman teve uma relação próxima com Lowen porém sempre manteve-se independente no que se referia à maneira de pensar e de trabalhar metodologicamente.

Frequentou o Instituto Alfred Adler e seu pensamento foi profundamente afetado pelas ideias de Adler sobre os órgãos, sobre a vontade pelo poder e sobre o papel da sociedade no desenvolvimento da personalidade. Tomou contato com Freud e Jung e com a noção do inconsciente (o não-conhecido) como a base da energia psíquica, o que o tocou profundamente. Seus estudos no Instituto A. Adler balancearam as abordagens caracterológicas de Freud, Reich e Lowen.

Simultaneamente, Keleman começou uma pesquisa com Nina Bull, uma neuro-fisióloga do Physicians and Surgeons Hospital da Columbia University. Nina, autora de ‘Teoria das Atitudes das Emoções’, estava interessada na relação entre o estresse emocional e os padrões de comportamento muscular ou padrões de ação em geral. Durante os seus 12 anos de convívio com ela, Keleman obteve grande conhecimento em neurofisiologia e sua relação com o comportamento humano. A filosofia social e o conhecimento neurológico de Nina Bull estabeleceram uma base para o modelo somático-neural das emoções e do comportamento desenvolvido por Keleman.

Suas pesquisas levaram-no à Europa em 1964, onde estudou psicologia existencial e fenomenológica durante três anos no Dasein Analytic Institute em Zurique.

Na Alemanha ele associou-se ao professor Karlfried von Durckheim no Centro para Estudos Religiosos. Keleman e Karlfried formaram uma grande amizade que duraria até a morte de Durkheim muitos anos depois. Durkheim apresentou-lhe uma psicologia profunda e religiosa que usava a forma humana para revelar a relação com o divino. Estes estudos propiciaram experiências fundamentais que confirmaram para Keleman o conceito do corpo enquanto o centro do self. Estas experiências foram as sementes do que mais tarde seriam a Psicologia Formativa® e a Metodologia Somático-emocional de Keleman.

Keleman sempre foi um pensador e desde cedo em sua vida buscava uma referência filosófica que pudesse balizar o seu caminho. No início interessou-se pelo conceito do élan vital de H. Bergson. Após alguns anos, abraçou as ideias de intencionalidade e fenomenologia de Martin Heidegger como a base filosófica para sua visão do processo de vida.

Após retornar aos Estados Unidos em 1967, Keleman mudou-se para a California onde trabalhou no Esalen Institute e tomou contato com a psicologia humanista. A interação com vários líderes da psicologia humanista -Carl Rogers, Fritz Perls, Virginia Satir e Alan Watts entre outros – constituiu um fórum para o desenvolvimento de suas ideias Em Esalen, numa atmosfera de revolução cultural, Keleman estabeleceu sua forma de trabalhar com os conflitos emocionais. Em 1968 estabeleceu-se em Berkeley, Califórnia, onde fundou e dirige até hoje o Center for Energetic Studies, instituto onde desenvolve o trabalho formativo.

Na década de 70 Keleman conheceu o mitólogo Joseph Campbell com quem formou uma grande amizade durante 15 anos. Nestes 15 anos coordenaram juntos workshops anuais no qual aprofundavam o conhecimento sobre as conexões entre mito e corpo. Anos depois, este trabalho resultou na publicação do livro Myth and the Body, de Keleman.

No Center for Energetic Studies em Berkeley, California, Stanley Keleman mantém uma prática clínica, coordena cursos e workshops e uma intensa programação nacional e internacional de programas profissionais. A Psicologia Formativa® e sua metodologia somático-emocional repousam firmemente sobre uma base anatômico-fisiológica, bem como sobre uma compreensão psicológica e mitológica. A abordagem formativa lida com o ser humano no seu impulso social e evolutivo na direção de formar um self somático pessoal.

Vejo Stanley Keleman como um dos grandes pensadores da nossa era, oferecendo uma visão inclusiva e multidimensional do processo humano cujo modelo teórico e metodológico está calcado numa real integração de todos os aspectos da realidade humana. Keleman é autor de 12 livros, vários dos quais foram publicados internacionalmente. Existem nove livros de Keleman traduzidos para o português, publicados no Brasil pela Summus editora.

Psicologia Formativa® é baseado no processo evolutivo em que a vida continuamente constitui a próxima série de formas, desde o nascimento até a maturidade à velhice. Na concepção, cada pessoa recebe uma herança biológica e emocional, mas é através do esforço voluntário que um humano cumpre o potencial de formar uma vida pessoal. A forma dá origem ao sentimento. Quando a identidade individual está fundamentada na realidade somática, podemos dizer: Eu sei quem sou pelo modo como me experimento.

Psicologia Formativa® dá uma filosofia e método de como trabalhar com a nossa vida. Aprendemos a regenerar nossa vitalidade emocional e instintiva, habitar nosso corpo e incorporar nossa excitação e vitalidade emocional. O objetivo da prática formativa é usar a vida cotidiana para praticar estar presente e criar um eu e uma realidade adultos. Eu procedo da premissa de que cada um de nós é concebido como adulto e de que crescemos os adultos que devemos ser.

Todos nós estamos em um processo contínuo de formação, estabilização e reforma de nossa realidade adulta. Esse processo de formação e reforma é uma extensão e contração contínuas da motilidade do tecido, um reflexo que é uma cadeia ininterrupta em nossa vida. A pulsação é uma expressão essencial da nossa vida hormonal e emocional. O processo de pulso, como os batimentos cardíacos, é crucial para manter a forma e o desenvolvimento do corpo. Um pulso contínuo organiza ciclos de excitação. Quando a pulsação é inibida ou superestimulada, nossa vida somática, emocional e mental também muda.

Na prática da formação, trabalhamos com os padrões de pulsação do soma e restauramos o ritmo e a vitalidade naturais do corpo. As áreas de gerenciamento voluntário no cérebro são usadas e sofrem crescimento.

Existe uma metodologia para a Psicologia Formativa® que eu chamo de prática corporal. A prática do corpo envolve a parte voluntária do cérebro para trabalhar com as funções somáticas reflexas e não-volitivas. O cérebro pode sugerir padrões de comportamento e formar uma imagem de seu próprio corpo para ter um relacionamento consigo mesmo. De primeira importância é estar corporal, formar o corpo vivendo os estágios de nossa existência somática.

A prática do corpo é inaugurada intensificando tudo o que reconhecemos como nossa atual posição somático-emocional. Essa intensificação visa ampliar o padrão de nossa maneira de estar presente, juntamente com suas imagens, memórias e pensamentos. Podemos então desorganizar o que fizemos voluntariamente e, ao fazê-lo, aprender como podemos ter alguma opinião sobre o que fazemos. Isso ajuda a aliviar as estruturas reflexas ou desconhecidas que nos foram inacessíveis. É semelhante a jogar um pedregulho na água e iniciar anéis de resposta. Nesta sequência, nos familiarizamos com a forma como organizamos nossas ações e como podemos usar nosso cérebro para afetar nossas respostas e sentimentos. O trabalho dos exercícios é formar um soma e um cérebro adultos, e uma emocionalidade adulta nas relações sociais.

O trabalho não se destina apenas a ser íntimo das estruturas passadas e a desorganizá-las, mas também a ter uma ferramenta para situações presentes e futuras.

Os exercícios são realizados lentamente, de maneira quadro a quadro, para descobrir a própria velocidade e compensar a anestesia somática – para se tornar íntimo da sensação de formação e formação do padrão de pulso.

Trabalhar somaticamente dessa maneira é provocar uma mudança no reconhecimento e experimentar a maneira como nos organizamos para estar presente, resolver problemas e experimentar as novas formas de expressão. Também organiza um diálogo entre corpo e cérebro, que muda os padrões de significado e ordem. Começamos a viver nosso destino, nossa herança somática. Começamos a nos capacitar na formação de nosso adulto e de seus relacionamentos.

Metodologia formativa: a prática do corpo

Poucas pessoas percebem que sua presença somático-emocional é uma organização complexa que geralmente é inconsciente. O método de exercício formativo é projetado para trazer alívio e vivificar a sequência organizadora e desorganizadora de formas somático-emocionais.

A prática corporal é baseada no reflexo pulsatório de expansão-contração e tem cinco etapas:

  1. Qual é a nossa situação somática? Organize o padrão muscular de nossa organização
  2. Intensifique o padrão para tornar vívida a atitude emocional
  3. Desfaça a atitude emocional-muscular intensificada.
  4. Pausa. Conter a resposta pulsatória
  5. Reorganização de novos padrões Os passos dois e três, realizados voluntariamente, possibilitam influenciar o comportamento inconsciente. Ao praticarmos aumentar e diminuir a intensidade da forma emocional muscular, geramos sensações e sentimentos específicos. Essa prática voluntária aumenta a função cortical para influenciar as respostas reflexas, tornando-as pessoais. Esse diálogo do corpo e do cérebro aumenta nosso adulto somático pessoal.

A prática corporal é uma ferramenta poderosa para ajudar a reorganizar traumas somáticos passados ​​e ajudar a formar soluções somáticas para problemas. No entanto, seu objetivo mais urgente é continuar, ampliar e reorganizar a experiência para desenvolver uma identidade somática pessoal. Por exemplo, ele pode ajudar a identificar e reorganizar as restrições ao redor do coração, permitindo uma inundação de calor no sangue que pode nos permitir amar novamente. Também pode usar seu calor para personalizar um relacionamento amoroso e aprofundar laços.

Ser capaz de influenciar a intensidade de como reagimos não é algo pequeno. Não há maneira estereotipada de fazer os exercícios, não há necessidade de realizar. O importante é como você aprende fazendo. Eu recomendo fazer os exercícios com um ritmo rítmico lento. Isso ajuda a congelar uma fase da estrutura, para manter a forma e saborear a mudança de forma e sentimento. Esta é uma experiência importante em auto regulação e identidade.

O trabalho é vincular o processo de pulso profundo entre forma e expressão, a fim de aprofundar o eu adulto instintivo e pessoal somático. Os exercícios são maneiras de nos ajudar a conhecer nossa identidade somático-emocional e, se desejarmos, mudar nosso estado, estar aqui de maneira diferente. É assim que os problemas são realmente resolvidos. O trabalho, então, é um processo que ajuda a estabelecer um eu adulto somático básico que nos dá um senso mais verdadeiro de nossa identidade, uma sanidade somática e realidade.

A prática do corpo enfatiza a vida cotidiana como a prática da formação. corpo do eu adulto. É um processo de existência, um continuum pulsatório. Invoca um reflexo de expandir, reunir, desmontar, reagrupar, reorganizar, crescer e formar.

O desejo de formar é um apetite básico, gerador de otimismo, esperança e caridade. A capacidade de se comprometer com esse processo, usando o córtex cerebral, dá à nossa vida uma referência para viver e gera satisfação.

O método formativo: como influenciamos voluntariamente a presença no mundo Filosofia formativa

Estrutura anatômica é comportamento. A filosofia formativa afirma que existem duas maneiras pelas quais o corpo gerencia seu processo comportamental. Um é herdado, os padrões pulsatórios, neurais e musculares com os quais nascemos; o outro é um esforço voluntário. Ambos surgem das células e são um processo natural do corpo. Os padrões comportamentais herdados são autônomos e automáticos. Eles não requerem esforço voluntário. O comportamento voluntário surge do herdado, não-volitivo e está localizado no córtex cerebral. O córtex cerebral tem a capacidade de influenciar voluntariamente o comportamento, criando novas conexões e novos padrões. Esses novos comportamentos tornam-se anatômicos e complementam o comportamento herdado. Esses dois comportamentos, o herdado e o voluntário, são experiências de autoconhecimento.

O soma cresce adulto, organizando uma série de formas ao longo do tempo. Há uma sequência nesta série de formas. Eles começam como formas móveis e não formadas; então eles se tornam difusos e porosos. Finalmente, eles se tornam mais formados e estáveis, formas rígidas ou densas.

Essa sequência de formas de desenvolvimento pode ser influenciada por gradientes de esforço voluntário. Com esforço voluntário, o córtex pode gerenciar surtos de motilidade, difusão osmótica de porosidade, firmeza rígida e formas compactadas. O não formado, instável e o continuum estabilizador de formas ocorre entre o corpo e seu córtex e o mundo.

Os adultos que aprendem a influenciar seu processo comportamental desenvolvem uma capacidade de governar suas vidas e suas transições. Os adultos que desenvolvem sua função voluntária são capazes de incorporar novas experiências e ações. Eles desenvolvem uma variedade de maneiras de estar presente no mundo. Atos voluntários discretos tornam complexidade a simplicidade e transformam e aprofundam nossa realidade anatômica e experiencial. O comportamento formado voluntariamente organiza a estrutura anatômica – uma memória viva que é um centro de ação e conhecimento.

A formação de uma estrutura anatômica pessoal requer esforço voluntário persistente. O esforço voluntário estendido ao longo do tempo aumenta as conexões anatômicas que formam relações entre o corpo e seu córtex. É uma função somática que pode alterar e criar uma estrutura anatômica.

O esforço voluntário é a força motriz no desenvolvimento de uma vida pessoal. Tem consequências por influenciar emoções, satisfação, relacionamentos e destino e consciência pessoal.

Memórias anatômicas

Uma estrutura anatômica é um comportamento lembrado. O comportamento lembrado está pronto para ser usado, uma vez que já passou pelo estágio móvel e pelo estágio difuso e poroso. Um comportamento lembrado pode ser reconhecido como ansiedade, cedência, rigidez ou agachamento.

Existem quatro padrões de comportamento lembrado: dois são herdados, um não é programado e o último é formado voluntariamente. O primeiro padrão herdado de comportamento lembrado é a organização de um organismo, sua arquitetura e seus movimentos de expansão e contração. O segundo padrão herdado de comportamento lembrado são os padrões de pulsos excitatórios elétricos, que ressoam e formam laços com outras células, como pássaros cantando juntos. O próximo padrão são as experiências que acompanham o processo de desenvolvimento. Depois, há os comportamentos anatômicos formados pelo esforço voluntário. O esforço voluntário influencia o comportamento herdado e de desenvolvimento.

O método formativo

O método da Psicologia Formativa® regenera nossa vitalidade emocional e instintiva. Sugere maneiras de habitar nosso corpo e de resistir ao encolhimento de nossa excitação e vitalidade emocional. A ênfase está na vida cotidiana como a prática de estar presente como um adulto somático.

Cada concepção representa uma combinação única de tipos de tecido com um processo organizacional específico. O endomorfo, um soma em forma de pêra com grandes pulmões e intestinos, reúne e incorpora. O mesomorfo muscular em forma de quadrado gosta de agir e enfrentar. O ectomorfo de corpo longo possui uma grande área sensorial para coletar informações e é hiperativo e alerta. Esses tipos de corpo orientam as experiências do organismo e para com os outros – incorporar, enfrentar, estar alerta e móvel. A forma como fazemos os exercícios e as respostas que temos a eles estão relacionadas ao tipo que somos. Podemos fazê-los e responder de maneira endo ou meso ou ecto. Podemos julgar mal nossas respostas ou ser críticas a elas.

Existe um processo de organização geral que forma nossa realidade somática. Esse processo de organização é essencial para estabelecer um relacionamento conosco. Possui várias fases e estágios. Quatro estágios, em um continuum, são respostas teciduais: inchadas, porosas, rígidas e densas. Esses estágios afetam como nosso soma também tem uma forma. Podemos ser um mesomorfo inchado ou poroso, rígido ou denso. Nossos corpos podem ser inflados, com a membrana esticada ou a membrana pode ser porosa, rígida ou compacta. Esses estados influenciam nosso processo de organização. É importante saber que nossa vitalidade e desejos herdados, nossos padrões de excitação e resposta emocional e social, podem ser modificados ou exagerados, individualizados e personalizados. Podemos fazer os exercícios e responder de maneira inchada, porosa ou rígida.

A pulsação é uma expressão essencial da nossa vida emocional. Os exercícios influenciam e ampliam a motilidade e a pulsação de nossos tecidos, que por sua vez organizam ciclos de excitação. Quando a pulsação é inibida ou superestimulada, nossa forma também muda. O pulso organizador, quando interrompido ou excitado, perturba o processo de formação do corpo. A metodologia da Psicologia Formativa® envolve a parte volitiva do cérebro para trabalhar com as marés não-volicionais de pulsação, desejo e sentimento excitatórios.

O método do exercício é inaugurado quando (1) reconhecemos o padrão de nossa atual posição somático-emocional, um estado ectomórfico alerta. (2) intensificamos nosso padrão de presença somática e nos damos mais definição, uma função mesomórfica. Ampliamos o padrão de ação e as imagens, memórias e pensamentos que o acompanham. (3) desorganizamos o padrão muscular que foi organizado. Essa também é uma função mesomórfica. Esses três passos trazem alívio para estruturas somáticas-emocionais desconhecidas e seus anéis de resposta. O passo dois organiza rigidez e densidade, enquanto o passo três organiza porosidade e inchaço. (4) Nesta etapa, contemos o aumento de pulsação, excitação ou imagem disponibilizada na etapa três. Esta é uma forma endomórfica e porosa. (5) Esta etapa é nova forma, novo comportamento.

O trabalho somático organiza um diálogo entre corpo e cérebro que muda o padrão de significado e ordem. Começamos a viver nosso destino, nossa herança emocional somática. Começamos a nos capacitar na formação de nosso adulto e de seus relacionamentos. Dessa maneira, reconhecemos e experimentamos o corpo que temos, o corpo em que vivemos e a possibilidade do soma que podemos ser.

O Trabalho da Psicologia Formativa®

A Psicologia Formativa® é uma abordagem educativa-terapêutica desenvolvida por Stanley Keleman na Califórnia, na década de 70. Para a Psicologia Formativa® o ser humano é um processo vivo, interconectado e em evolução, constantemente mudando de forma, física e emocionalmente. Acreditamos que emoções e pensamentos estão vinculados à postura corporal; o corpo manifesta nosso modo de sentir e pensar, bem como nossa atitude na vida. Apesar de não termos o controle das nossas emoções e pensamentos, podemos influenciá-los trabalhando com as nossas posturas musculares. A Psicologia Formativa® utiliza micro movimentos voluntários para ajudar a pessoa a transformar suas posturas emocionais e seu modo de se relacionar. Os exercícios formativos aprofundam a ligação entre corpo e cérebro estimulando a formação de novas conexões neurais e novos comportamentos.

Partimos do princípio de que a pessoa funciona da melhor forma possível em seu momento atual e que usa os recursos que tem, mesmo que estes lhe tragam dor ou sofrimento. Contudo, ao procurar atendimento, a pessoa está buscando reorganizar seus padrões habituais e aprender formas mais satisfatórias para o seu viver. Na Psicologia Formativa® estamos interessados no que a pessoa quer formar para si mesma e quais são as suas dificuldades para conseguir isto. Identificamos suas posturas e padrões de funcionamento muscular, emocional e cognitivo e usamos exercícios específicos para ajudá-la a criar alternativas de ação. Trabalhamos para ajudar a pessoa a influenciar a si mesma na vida cotidiana.

Há sempre uma chance de se formar algo novo. Enquanto adultos, não somos vítimas dos nossos padrões habituais ou da atitude de outras pessoas. Os exercícios constituem uma ferramenta prática para o viver e uma possibilidade de diálogo consigo mesmo.

No trabalho formativo, a relação terapêutica é de parceria cooperativa; a pessoa participa ativamente no seu processo, construindo autonomia para lidar com as situações da vida diária. A Psicologia Formativa® trabalha para ajudar a pessoa a crescer e formar o que ela deseja na vida, seja no âmbito pessoal, profissional ou comunitário.

Leila Cohn

Bases Teóricas

A Psicologia Formativa® tem como base filosófica a fenomenologia e sua visão do ser humano está calcada na realidade dos processos biológicos e na inseparabilidade entre vida subjetiva e vida somática. A teoria formativa vincula o processo biológico ao processo subjetivo-existencial humano, estabelecendo um campo de conhecimento onde a subjetividade e o processo corporal são vistos como um contínuo, uma mesma realidade. Todo evento humano é parte de uma organização somática maior e inclui uma atitude emocional, um padrão de pensamento, de comportamento, uma maneira de imaginar e de sentir. Vísceras, nervos e músculos interagem entre si e com o seu cérebro, formando relações que nós expressamos em linguagem, pensamento, sentimento, imagem, sonho e comportamento. A experiência subjetiva se forma a partir da realidade do processo somático, da experiência corporificada.

A Psicologia Formativa® é uma abordagem evolutiva que trata o corpo humano como uma jornada de crescimento e amadurecimento, um processo subjetivo vivo movendo-se continuamente na direção de formar a si mesmo, crescer e amadurecer. O corpo é um processo formativo organizado em uma série de formas somático-emocionais que aparecem e desaparecem ao longo do tempo, da concepção à morte. Essas formas vão se adicionando em camadas ao longo da nossa existência e coexistem em nós superpostas. A maneira pela qual recebemos ou resistimos às transições de forma ao longo da vida, afeta a organização da nossa adultez e molda nossa capacidade de aprofundar e amadurecer.

Temos um corpo herdado e um corpo formado interagindo entre si. O corpo herdado geneticamente nos confere uma estrutura constitucional que irá influenciar nosso estilo de viver. A Psicologia Formativa® baseou-se na tipologia criada por W. Sheldom para organizar o conceito de corpo herdado, calcado no processo de desenvolvimento embriológico. As interações com o nosso legado genético e com o ambiente social no qual estamos inseridos, geram a organização de um corpo pessoal, o corpo formado.

Quando enfrentamos um desafio, uma ameaça ou um insulto, organizamos uma sequência de respostas somáticas em cadeia, geneticamente dadas: assumimos uma atitude alerta, inflamos o peito, aceleramos o ritmo cardíaco e aumentamos o tônus muscular nos prontificando para agir. Diante do término da situação inicial podemos retornar à pulsação original, desorganizando as respostas de emergência acima descritas. Porém, se o insulto persiste ou retorna, ou é grave e intenso, alteramos nossa postura para lidar com esta realidade. Mudamos nosso padrão de pulsação, de respiração, nosso tônus muscular, os níveis de secreção hormonal, a consistência dos nossos tecidos e a geografia dos nossos espaços internos. Formamos posturas somático-emocionais com mais ou menos tonicidade e maleabilidade, organizando os tipos somáticos inflado, poroso, rígido ou denso. Cada estrutura somática tem uma lógica própria e um padrão emocional que organiza um modo de se relacionar consigo e com o outro. A estrutura somático-emocional que formamos para lidar com os desafios da vida, sejam eles internos ou externos, é a nossa marca peculiar, nossa singularidade.

O objetivo do soma é perpetuar a si mesmo, formar um futuro e pessoalizar o seu legado genético através da organização de uma relação consigo mesmo. Esta relação intrapessoal possibilita-nos diferenciar-nos do todo e formar uma individualidade. A estrutura corporal de uma pessoa expressa sua história pessoal, sua maneira de estar e relacionar-se no mundo. Quando trabalhamos com alguém lidamos com a lógica daquela forma somática e com o conjunto de regras internas daquela pessoa. A capacidade de dialogar internamente, de influenciar a si mesmo e de intervir no próprio processo, marca da subjetividade humana, é mediada pelo córtex cerebral. A função volitiva do córtex cerebral e o esforço muscular voluntário possibilitam este diálogo do corpo consigo mesmo. A metodologia formativa repousa sobre esta base.

A Metodologia Formativa

Keleman criou uma metodologia que nos possibilita experimentar nossos padrões de organização e influenciá-los através do uso do esforço muscular voluntário. A metodologia formativa, ou a “Prática de Corpar” trabalha com o contínuo pulsatório inato de contração e expansão presente em nossas células e tecidos e com a relação entre corpo e cérebro. A capacidade volitiva do córtex cerebral nos possibilita alterar muscularmente nossas posturas emocionais e formar novos padrões de comportamento. A metodologia propicia à pessoa influenciar a si própria e participar assertivamente do seu processo de auto-regulação e de suas transições de forma. Através do uso do esforço muscular voluntário, os exercícios possibilitam alterar padrões de organização somático-emocionais influenciando nosso estado interno e nosso senso de identidade.

O trabalho formativo busca dar forma e aprofundar o diálogo do corpo consigo mesmo, dando voz à realidade interna que existe em cada ser humano e possibilitando a corporificação desta realidade como uma presença pessoal subjetiva. A metodologia visa proporcionar à pessoa uma maneira de organizar a experiência do seu processo, influenciar a si mesma e organizar um conjunto de valores pessoais baseados na sua experiência.

“…A Prática de Corpar começa no córtex organizando a habilidade volitiva deste para influenciar seu próprio comportamento e para gerar maneiras possíveis de estarmos no mundo corporalmente. Os exercícios ajudam a reorganizar os fluxos de excitação e urgência, tornando-os expressões de afeição e organizando vínculos duradouros…” (Keleman, 1997:6)

A Prática de Corpar – os Cinco Passos:

  1. Perceber como você está presente corporalmente.
  2. Intensificar a sua postura através do esforço muscular voluntário, em etapas.
  3. Desfazer a intensificação da forma em etapas gerenciadas.
  4. Pausar para receber suas respostas somáticas.
  5. Consolidar a organização que aparece, dando-lhe firmeza e duração.

Os passos dois e três formam uma pulsação: contrair e expandir, para o mundo e para si, intensificar e desintensificar. Expandir evoca o reflexo de contrair, e contrair evoca o seu oposto, expandir. Ao praticarmos nos dois sentidos colocamos em andamento um processo de reorganização interna que implicará em um novo padrão pulsatório e uma nova forma corporal. Este embrião de uma nova forma-pulsação se manifesta no estágio quatro, palco das novas possibilidades de corpar. No estágio cinco cabe-nos corpar a forma que emerge e consolidá-la, conferindo-lhe duração através do esforço muscular.

O exercício formativo sustenta o pulso organizador e a tensão entre as posturas através da capacidade de inibição do movimento. A prática de corpar torna o pulso interno disponível para a influência voluntária. Este pulso é um mestre interno que nos auxilia a organizar e a somatizar as diferentes camadas do corpo. Ao trabalharmos com a metodologia organizamos um espaço para receber e corporificar nossas respostas. O exercício nos possibilita estabelecer distinções dentro de uma mesma organização, gerenciar nosso comportamento e definir uma identidade.

Ao trabalhar com a capacidade volitiva do soma, a metodologia formativa nos possibilita influenciar as formas emocionais que corporificamos e os padrões de comportamento que as acompanham. Nos grupos e workshops trabalhamos para aumentar a nossa capacidade de influência sobre nós mesmos e sermos agentes do nosso destino.

Referências Bibliográficas:

Cohn, Leila e Teixeira, Iracema. A Psicologia Formativa®: uma abordagem somático-emocional, em Anais do 2º Fórum do Curso de Pós-Graduação em Terapias Corporais: Fundamentos Teóricos. Instituto Brasileiro de Medicina e Reabilitação. Coordenação de Pós- Graduação e Pesquisa, 2001.

Keleman, S. (1987) Embodying Experience. Berkeley, CA: Center Press.

» (1985) Emotional Anatomy. Berkeley, CA: Center Press.

» (1999) Myth and the Body: a colloquy with Joseph Campbell. Berkeley, CA: Center Press

» (1989) Patterns of Distress. Berkeley, CA: Center Press.

» (1979) Somatic Reality. Berkely, CA: Center Press

» (1991) “Maturiry – Somatic Appearances Rippening” Summer Institute-Berkeley, CA

» (1995) “Deepening Our Interiority: Dreams, Soma and Maturity” Winter Institute- Berkeley, CA

» (1997) “Being an Adult: Age and Identity” Summer Institute-Berkeley, CA

» (1998) “Dreams and Deepening the Adult” Winter Institute-Berkeley, CA

» (2003) “More and Less Voluntary Muscular Effort” texto transcrito de palestra em Berkeley, CA, a ser publicado na edição alemã de Insultos à Forma.

» and Russel, David (1993) Who Owns the Body? The Life and Work of Stanley Keleman. University of California, Santa Barbara. Library Oral History Program.

Ribeiro, Ana Rita e Magalhães, Romero. (1997) Guia de Abordagens Corporais. Summus Editorial.

O pensamento formativo tem como base filosófica a fenomenologia, compreendendo o ser humano como um processo que se constrói continuamente, através da própria experiência. O corpo humano é visto como um processo subjetivo, um fenômeno vivo, que pulsa e forma a si mesmo. Processo corporal e experiência subjetiva são um contínuo, parte de uma mesma realidade.

Existimos concomitantemente em um corpo biológico e em um corpo pessoalmente formado. A jornada humana engloba o desenvolvimento das diversas formas que aparecem da infância à adolescência e depois nas várias fases da vida adulta, e suas respectivas experiências subjetivas. O processo inato de nascer, crescer, amadurecer, envelhecer e morrer, destinado a todo indivíduo, é compreendido pela teoria formativa como sendo maleável e passível de ser influenciado voluntariamente. O grau de envolvimento pessoal com o próprio processo e o compromisso de tomá-lo nas mãos diferencia a jornada de cada indivíduo.

Keleman tem como filosofia clínica a noção de um processo educativo-terapêutico baseado na reorganização de padrões somático-emocionais herdados e aprendidos. Usando o método formativo, o terapeuta trabalha em parceria com o cliente no sentido deste aprofundar o conhecimento de si e gerar novas possibilidades de auto-formação. A abordagem formativa não visa consertar algo ou curar danos do passado, mas propiciar a reorganização de posturas emocionais e comportamentos que sejam impeditivos de crescimento. O método trabalha com a reestruturação de formas neuro-motoras e consequente ampliação da influência do sujeito sobre a sua realidade emocional e seu processo de evolução pessoal.