Aprendendo a Formar O Caminho Pessoal da Mudança - A Perspectiva Formativa de Stanley Keleman*
Carmen Lemos

*Trabalho publicado no Jornal PRANA – Universo Holístico, maio 2009, 147ª ed.

Ao pensar nos processos de criação e mudança existentes no Universo, nas cidades, nas sociedades e nas nossas vidas pessoais, damo-nos conta de que esse dinamismo ocorre há 4,5 bilhões de anos, quando a vida surgiu ao mesmo tempo como emanação e criação do Cosmos. Assim que a vida se diversificou no planeta, através de conexões dentro de conexões – antagônicas, concorrentes e complementares, formaram-se os ecossistemas.

O surgimento do ser humano na Terra compõe uma complexa história da evolução sobre o desenvolvimento da sua capacidade adaptativa. A estrutura genética, morfológica, anatômica, fisiológica e antropológica da espécie desafia sua vocação universal de construir formas. A estrutura sócio-cultural, caracterizada pela transmissão de informações pela experiência, uso da linguagem e outras representações simbólicas, torna-se uma verdadeira fonte para a compreensão da humanidade.

O ser humano vem investindo largamente na decifração da complexidade do cérebro, na formação da consciência e no mistério que se encerra na organização bio-antropológica, na organização sócio-cultural e no sistema cibernético, capaz de dar conta do evento casual, aleatório, singular, histórico e inevitavelmente existencial.

Nas primeiras décadas do século XX, ao final da Primeira Guerra Mundial , a história da civilização viveu o horror à crueldade, o absurdo dos massacres, a devastação da terra e o desamparo dos humanos de onde emergiu um novo esboço de consciência. Enfim a busca de bases para uma paz duradoura e o socorro à epidemia das experiências pós-traumáticas despertaram muitos sobre a questão do ser no mundo.

Já na década de 50 começava-se a acreditava-se que a ciência e a tecnologia, a filosofia, a arte e a cultura ensinavam à clínica e à educação a formar novos modos de subjetivação. A compreensão do processo auto-organizador do sistema da Vida, proveniente da visão cosmológica contemporânea, gerou estratégias pedagógicas voltadas para o aprender-a-aprender, fundamentadas no mundo vivido pela experiência.

No “caldeirão” transdisciplinar e transcultural, o chamado Movimento da Contracultura dos anos 60, Stanley Keleman, cidadão novayorkino, indagava-se sobre a experiência de vida das pessoas mediante a forma e o uso dos seus corpos, concomitantemente com as posturas somáticas e emocionais através das quais elas se expressavam. Em consonância com os princípios da Cosmologia Contemporânea e por isso da Teoria Evolucionista, Biologia Celular, Neurofisiologia, Psicologia Existencial e Fenomenologia Heideggeriana, ele mergulhou nos princípios da corporificação da experiência vivida pelos humanos como processo vivo. Ele defendia que o corpo humano é sujeito e objeto da vida de si mesmo. Posteriormente suas idéias vieram a ressoar na década de 90 em harmonia com as contribuições das Neurociências, em especial a Neurobiologia de Gerald Edelman. Stanley Keleman vive atualmente em Berkeley na California com seus 75 anos e continua aprofundando e partilhando seu legado criador.
Keleman constituiu o pensamento formativo a partir do processo de desenvolvimento do corpo humano e do senso de subjetividade somática como um processo vivo, contínuo e organizador de formas. Os conceitos de auto-regulação e autonomia, oriundos da Biologia, foram aplicados no projeto de Keleman para viabilizar a modulação da forma hereditária e das formas aprendidas socialmente e assim criar a forma pessoalizada. – uma unidade na totalidade. Dizendo de outra maneira o corpo humano é um processo complexo de pulsos e impulsos - sensações , emoções, sentimentos, pensamentos, imagens, comportamentos,... formatando a aventura básica da vida.

A visão formativa concebe o ser humano como um complexo biológico em muitas instâncias de funcionamento e formação de muitos corpos. De moléculas, células, tecidos, órgãos e sistemas forma-se o corpo através do ato de viver, seguindo a trajetória natural do nascimento à morte. Então cada pessoa constitui-se de um legado genético e de um processo de aprendizado sócio-cultural que dão origem a uma vida pessoal. O modo específico pelo qual o corpo de uma pessoa é formado desenvolve a sua autonomia. Há sempre uma ação voluntária como resposta aos desafios internos e externos diante da situação de lidar com obstáculos do viver. Os padrões de ansiedade começam aqui e são trabalhados a partir das evidências.

A metodologia formativa, também chamada de Prática de Corpar baseia-se no processo universal de organização-reorganização-desorganização de formas, que cria variações na forma do corpo a partir do aumento e da diminuição da intensidade e da duração dos padrões de pulsação. Os padrões de comportamento e pensamento e a expressão emocional geram um diálogo interno e formam novas condições de possibilidade de o ser humano modelar novos estilos de estar no mundo. Portanto a fisicalidade e a subjetividade organizam conexões entre ação, sentimento, pensamento, valores e significados da vida.

A psicoterapia formativa visa a facilitar o cliente a aprender-reaprender-desaprender sobre a organização de um comportamento seu e partir em busca de alcançar melhor suas necessidades para assumir a complexidade da sua vida pessoal. Um terapeuta formativo focaliza as necessidades das pessoas e dos grupos e assim acompanha o processo de desenvolvimento da maturação dos repertórios de formas. No setting do trabalho somático o ambiente funciona como “campo corpante”, visando a propiciar a organização-desorganização e a sustentação das intensidades emocionais em cada situação.

Apresento assim, para efeito de ilustração, o depoimento de uma cliente, que aqui chamo de Melânia. Ela tem 45 anos, recém-descasada, mãe de um adolescente, advogada e pedagoga. Vem reorganizando sua vida, a partir do tratamento voltado à síndrome do pânico em alternância com a depressão e ao comportamento alimentar compulsivo, que a levou ao excesso de peso. Quando foi saindo do quarto e da casa para o mundo, submeteu-se à cirurgia bariática e nesse período iniciou seu trabalho terapêutico comigo. Melânia era uma mulher pequena e ameaçada, que tentava ser grande e poderosa, debatendo-se continuamente entre desejos sem limites e os sentimentos de humilhação e fracasso. Nosso trabalho de parceria atualmente completa quatro anos. Vejamos o que ela fala sobre si:

Aprendo a cada dia a reconhecer e usar a inteireza de meu corpo vivo, que antes o percebia em partes separadas: só a cabeça doendo, só o peito em agonia, só o estômago queimando. Os membros superiores e inferiores não existiam. Aos poucos fui sendo ajudada a falar dessas sensações e do extremo medo. Assim comecei a aprender como fazer e desfazer determinadas posturas habituais, que me traziam dores e agonia do pânico ou da depressão e daí poder organizar uma forma nova. “Criei” pele, contorno, interioridade e superfície, limites, ritmo, possibilidade de formar quem sou eu hoje e as outras “mulheres” que estão crescendo em mim. Passei a sentir mesmo com dor os ossos, os músculos e os órgãos, que se expressam em comunhão com meu cérebro... Sustento hoje com muito esforço o meu corpo cheio e pesado e tento descobrir recursos para regular a compulsão por alimento doce. Não sou mais passiva, ficando à mercê das emoções que me afrontavam, da insônia constante à noite, da sonolência incontrolável pela manhã, da falta de futuro, da ira incontida,.. Assim mais motivada, passei a acompanhar o meu filho em suas tarefas e escolhas, tornando-me uma mãe mais educadora; aproximei-me com harmonia da doença e da morte do meu pai; recebi com alegria o meu primeiro sobrinho, que nasceu; administro todos os dias a raiva e a dor da separação. Venho cuidando com toda atenção da minha vida pessoal - separação e divórcio, mudança de casa com venda e compra de imóvel e administração de obra. Venho trabalhando para diminuir o peso e conter a compulsão. Concluí o mestrado, apresentei trabalhos em congressos, comecei a ministrar aulas em Universidade, fui aprovada na seleção do Doutorado,...Tudo ainda é feito com muito esforço. Às vezes sinto até o desespero, lutando sempre com o medo avassalador. Estou aprendendo a poder viver bem e viver diferente o poder que existe em mim “. Os exercícios do método formativo me põem diante de uma agenda estruturada. O suporte emocional e a naturalidade do trabalho dado pela terapeuta fez a diferença para que eu decidisse tomar o novo rumo.

A fé e a esperança no processo formativo, ancoradas no processo biológico, é um convite decisivo à evolução humana. A mudança sempre é a ordem da hora e a estabilidade é o tear da criação. Em suma criar um padrão pulsatório nos torna capazes de ser participante - autor e protagonista de uma narrativa de construção da história de nossas vidas.

Desenvolvo esta linha de trabalho terapêutico e pedagógico há 15 anos em consultório e em grupos de estudo e ensino. Participo dos treinamentos profissionais em Psicologia Formativa® no Centro de Psicologia Formativa® do Brasil e na Califórnia- Estados Unidos com Stanley Keleman.



Em julho de 2015 Leila Cohn entrevistou Stanley Keleman sobre o processo de envelhecimento e os desafios de ser mais velho na sociedade atual.
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